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A fé dos cientistas - Possibilidades e ficções - Parte 2

Ceticismo “Sim”, mas com a crença dos outros

Pela argumentação do professor de Teoria Crítica na Universidade de Sunderland (Reino Unido), (exposta no artigo anterior) Stuart Sim, é possível ver claramente que seu ceticismo aplica-se somente às crenças que não lhe são simpáticas.

Tal ceticismo pode ser seletivo, mas não crítico e muito menos científico, pois as regras do método acabam sendo aplicadas de forma branda ou ostensiva, de acordo com o resultado pretendido.

Em sua obra Impérios da crença, já na introdução, Sim afirma que o “ceticismo é essencialmente um argumento contra a autoridade, que contesta as suposições nas quais se baseia e o poder que delas emana. É certamente assim que desejamos que o ceticismo funcione no novo século, fazendo que a autoridade institucional e governamental seja extremamente circunspecta em sua conduta e esteja sempre ciente da possibilidade de ser desafiada de dentro de seu próprio domínio. A menos que seja mantida sob constante vigilância, tal autoridade possui uma clara tendência a se tornar autoritária e a se esforçar para manter sua base de poder a todo custo: o ceticismo constituirá a base de tal vigilância, a perpétua fonte de divergência” (pp.17,18).


A discussão de Stuart Sim e mesmo o seu próprio discurso devem interessar não apenas os religiosos, mas também os cientistas, pois tal cuidado é necessário a ambas — religião e ciência — a fim de que não se tornem fontes de dominação e/ou simulacro de progresso humano.


O argumento de Sim será utilizado como parâmetro, mas ciente estou de que ele não o aplica de forma indiscriminada, mas apenas aos pontos e tópicos que, como já disse, não lhe são simpáticos.

Na realidade, tal prática é muito antiga, pois, como já dizia Thomas Huxley* (que cunhou o termo agnóstico para autodefinir-se), em seus Escritos sobre ciência e religião, o “agente do progresso do conhecimento natural recusa totalmente a submissão à autoridade enquanto tal. Para ele, o ceticismo é o mais elevado dos deveres e a fé cega, o pecado imperdoável. Não poderia ser de outro modo, pois todo grande avanço no conhecimento natural envolveu a radical rejeição da autoridade, a adoção do mais agudo ceticismo, a aniquilação do espírito da fé incondicional; e o mais ardoroso devoto da ciência sustenta suas mais firmes convicções não porque os homens que mais venera sustentam-nas, não porque sua veracidade é atestada por maravilhas e portentos, mas porque sua experiência ensina-o que, ao opor essas convicções à sua fonte primária, a natureza — quando quer que as julgue aptas a enfrentar testes baseados na experiência e na observação —, ela as confirmará. O homem de ciência aprendeu a acreditar na justificação não pela fé, mas pela verificação” (p.56).   


Aprecio tal ceticismo e não tenho nenhum problema com este tipo de postura, porém, não posso aceitar sua seletividade. Se for para duvidar, não se pode agir assim apenas em relação ao dogma religioso, mas igualmente a respeito do dogma científico.


Aliás, se o desenvolvimento da espiritualidade emperra por conta de um dogma improvável, é inadmissível que a ciência seja atravancada por um dogma epistemológico. Meu ceticismo não oblitera, por exemplo, meu bom senso ou lucidez a respeito da premissa einsteiniana (citada por Milton Santos em sua Por uma Geografia Nova), que reconhece a obviedade (não tão óbvia assim) de que a “‘crença num mundo externo independentemente do indivíduo que o percebe é a base de todas as ciências naturais’” (p.43).

É fato que tal premissa no contexto da década dos cinquenta visava o combate de posturas epistemológicas que, por incrível que pareça, ainda hoje concebem a realidade externa como “ilusão” ou “manifestações”.

O biólogo ateu Edward Wilson, em sua obra A Criação*, fala acerca dessa postura, dizendo que alguns “filósofos pós-modernos, convencidos de que a verdade é relativa e dependente apenas da visão de mundo de cada um, argumentam que não existe uma entidade objetiva tal como a ‘Natureza’. Para eles trata-se de uma falsa dicotomia, que surge em algumas culturas e não em outras. Estou disposto a levar em conta esse ponto de vista, pelo menos por alguns minutos, mas já atravessei tantas fronteiras nítidas entre ecossistemas naturais e humanizados que não posso duvidar da existência objetiva da Natureza” (p.31).

Levada a extremos, a premissa einsteiniana até pode fundamentar a curiosidade acerca da questão se há vida fora da Terra, pois, do ponto de vista epistêmico, é plenamente aceitável como problema teórico. O mal é quando ilações reverberam na mídia e acabam tornando-se, no imaginário do senso comum, “fatos”.

O exemplo está exatamente no que aconteceu no final do ano passado, mas que se repete a cada nova manchete midiática. Quinta-feira, 2 de dezembro de 2010. No Jornal Nacional, a primeira matéria anunciou uma pesquisa feita por cientistas da Nasa. Uma bactéria que paradoxalmente alimenta-se de arsênio, substituindo o fósforo, elemento essencial para a constituição da vida.

Um poderoso veneno que se julgava letal à vida até descobrir-se que a bactéria GFAJ-1, um simples micróbio, alimenta-se dessa substância. Pronto. Foi o que bastou para reacender a discussão popular sobre a possibilidade de existir vida em outros planetas onde faltam os seis elementos químicos básicos — carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e enxofre — ou algum deles


A empolgação midiática é visível e até natural (a mídia, com raríssimas exceções, vive de sensacionalismo).


A revista Veja (edição 2194, ano 43, n°49, de 8 de dezembro de 2010)*, trouxe matéria sobre o assunto [A vida como ela não é], dizendo que os “resultados [da descoberta da bactéria] também abrem novas perspectivas para o estudo da vida em outros planetas. Embora, nessa matéria, boa parte das discussões ainda fique no terreno das conjecturas, pelo menos um passo à frente foi dado: até a divulgação da pesquisa americana, estava descartada a possibilidade de haver vida em qualquer planeta onde não existissem todos os seis elementos químicos [acima citados]. Agora que se descobriu que há uma forma de vida que pode prescindir, em grande parte, de um desses elementos, a possibilidade de encontrá-la em ambientes extraterrestres tornou-se mais ampla” (p.118).

Apesar de toda excitação que o achado gerou na equipe coordenada pela microbiologista Felisa Wolfe-Simon, do Instituto de Astrobiologia da Nasa e da organização Pesquisa Geológica dos Estados Unidos, o biólogo Fernando Reinach, alerta para o fato de que como as “bactérias analisadas em laboratório ainda apresentavam uma pequena quantidade de fósforo em sua composição — à proporção de um átomo desse elemento para cada sete átomos de arsênio —, o que não se sabe ainda, é se essa bactéria consegue viver totalmente sem fósforo” (p.118).

A pesquisa que descobriu a bactéria GFAJ-1 é levada a efeito por cientistas justamente com a finalidade de “tentar entender que tipos de vida poderiam existir em outros ambientes ‘estranhos’, inclusive extraterrestres” (p.118). Esta é a real motivação de toda a pesquisa.

Na realidade, a Hipótese Extraterrestre (HET) ou “a busca por vida extraterrestre”, como afirma Marcelo Gleiser em Poeira das Estrelas, “existe e faz parte da pesquisa de ponta” (p.264).

O físico teórico brasileiro relata o empenho de mais de quatro décadas do astrônomo Frank Drake em comunicar-se com seres extraterrestres: “O projeto, batizado de Seti (do inglês ‘Search for Extraterrestrial Inteligence’, ‘Busca por Inteligência Extraterrestre’), consiste numa série de telescópios desenhados para captar ondas de rádio, basicamente antenas parabólicas muito sensíveis que vasculham os céus em busca de possíveis transmissões” (p.265).   

Como a obra Poeira das Estrelas* é homônima da série apresentada no Fantástico em 2006, Gleiser conta que foi até o “Seti Institute, nos arredores de San Francisco, conversar [com Drake] sobre o programa e sua crença de que um dia será capaz de encontrar sinais criados por seres extraterrestres inteligentes. Apesar de terem se passado quatro décadas e de sua luta para conseguir financiamento, Drake continua acreditando que o programa é viável. Sem fundos governamentais, o programa depende hoje de doações privadas. Ainda bem que tantos americanos acreditam em seres extraterrestres! Eis um bom exemplo de uma crença que beneficia a pesquisa científica!” (pp.266-68).

Já houve tempo, em minha opinião, que as motivações científicas eram mais nobres e visavam o bem da humanidade. Quanto à “crença em vida extraterrestre” a que se refere Marcelo Gleiser, penso que o benefício que ela proporciona à pesquisa científica talvez venha somente de maneira sub-reptícia ou como um subproduto, pois parece não haver ainda registro algum de que tais buscas tenham produzido resultados benéficos diretos à humanidade.

Entretanto, este parece não ser o principal motivo da insistência na HET. Thomas Kuhn, em sua célebre obra lançada em 1962, A Estrutura das Revoluções Científicas, já advertia para a mudança de paradigma que altera os rumos da ciência em diferentes épocas e contextos históricos. Kuhn chama de “‘paradigmas’ as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (p.13).

Essa concepção de paradigma de Thomas Kuhn dificilmente se harmoniza com as modernas intenções de grande parte da comunidade científica. Diogo Mainardi, em artigo intitulado “Macacos, sexo e Michelangelo” (Veja, edição 2202, ano 44, n°5, de 2 de fevereiro de 2011), ironiza a megalomania e a voracidade midiática de alguns divulgadores da ciência:


Nas últimas décadas, a biologia se transformou numa Galápagos intelectual, em que darwinistas das mais variadas espécies competem entre si, apresentando teorias extravagantes para se adaptar ao ambiente editorial e televisivo. Os mais bem-sucedidos divulgadores do darwinismo vendem livros como se fossem larvas de cupim e ganham documentários produzidos pela National Geographic Society” (p.82).


Mainardi fala dessa forma referindo-se a obra recentemente lançada, O Terceiro Chimpanzé*, de Jared Diamond (livro que ainda não li). Tomando este exemplo emprestado, é incrível como uma bactéria dá base para inferências ou ilações acerca de vida extraterrestre, mas toda a complexidade da vida terráquea — desde os mais simples organismos unicelulares até aos mais complexos seres pluricelulares —, não serve como evidência ou sinal de um Criador.

Para ser honesto, é preciso admitir que, no mínimo, ambas as hipóteses têm a mesma possibilidade de ser reais. Agora, rotular os que creem em um Deus que criou todas as coisas de fanáticos, mas admirar quem acredita em vida extraterrestre, mesmo sem nenhuma prova além da credulidade científica e/ou predisposição cognitiva, é ser desonesto com a própria ciência.




César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD e professor universitário. É autor de “Marketing para Escola Dominical”, que ganhou o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãs (Asec) de Melhor Obra de Educação Cristã no Brasil em 2006, e do romance juvenil “O mundo de Rebeca”; e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.



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